'Ele se deitava do meu lado e ficava ali por horas..."
Quando eu estive internado numa Clínica, assisti ao Filme "28 Dias", e atentei para o detalhe que nos dois primeiros anos não deveria me envolver com relacionamentos, não viver novas emoções, até que eu estivesse em condições de equilíbrio emocional.
Bem, o que se propunha no filme era que se cuidasse de uma planta ou então de um animal.
Depois disso vi a mesma sugestão sobre relacionamentos no livro "Viver Sóbrio".Isso ficou gravado no meu inconsciente.
No dia que deixei a Clínica fui acometido de um pavor, não sabia como iria enfrentar a vida lá fora novamente; se conseguiria cumprir a minha meta que era a de me manter sóbrio.
Saí da Clínica acompanhado do meu cunhado, que foi o responsável pela internação, a quem eu devo muito e chorei, chorei de medo, de pavor, não suportaria voltar ao inferno que há poucos dias atrás me encontrava.
Meus relacionamentos com amigos, familiares e com vizinhos estavam destruídos, eu estava só, desempregado, tinha ainda meu irmão ao meu lado, com quem eu morava, mas ele não acreditava muito na minha recuperação.
Chegando em casa, a primeira coisa que fiz foi procurar um Grupo de A.A.; fui até uma igreja próxima de casa, mas naquele dia não haveria reunião.
Voltei pra casa frustrado e deparei, em frente ao portão, com um cachorro, um Fox Paulistinha, parado ali, em frente ao portão. Eu e meu irmão, que tinha me acompanhado até à igreja, o afugentamos.
Entrei em casa e fiquei algumas horas no meu quarto; acessei a Internet e achei no site de Alcoólicos Anônimos, o Grupo AABR; fiz o meu ingresso naquele Grupo no mesmo instante e saí para dar uma volta. Quem encontro novamente? O mesmo cachorro, em frente ao portão!
Dessa vez não tive dúvidas. Dei um chute nele e coloquei-o para correr. Corri atrás dele, afugentando-o até a esquina, na certeza de que ele não voltaria.
Naquele dia não voltou mesmo. No dia seguinte saí bem cedo de casa e lá estava ele, parado novamente em frente ao portão. Ao me ver, começou a abanar o rabo, com a língua de fora. E mais uma vez o espantei.
Ao retornar para casa, meu sobrinho me alertou para o fato. Será que esse cachorro não foi mandado por Deus? Não é possível que um animal que já foi chutado, espantado, posto pra correr, retome com tanta insistência.
Naquele momento eu me dei conta! Meu Deus, cadê o cachorro?
Corri para a rua na esperança de encontrá-lo novamente, e lá estava ele parado na frente do portão, como se estive me esperando para pegá-lo.
Por brincadeira, coloquei o nome dele de Schuazeneger, mas ele não atendia, até que, desistindo, comentei: - esse cachorro é um Nóia! Assim que eu falei "Nóia", ele se levantou e veio até mim abanando o rabo.
E foi assim que ele ganhou o seu nome: Nóia. Passamos a ser bons amigos; éramos inseparáveis; quando eu saía de casa ele já estava pronto, esperando que eu o levasse junto. Andávamos pelas ruas do bairro e ele, com seu jeito simpático e brincalhão, foi cativando as pessoas de forma que, quando alguém me via sem ele, logo perguntava: - cadê o Nóia?
Quando eu não podia levá-lo comigo, como por exemplo ao Grupo de A.A., ele se punha a uivar e só parava quando eu voltava.
À noite, quando eu sentava em frente ao computador, para conversar e ler os emails do Grupo AABR, ele se deitava do meu lado e ficava ali por horas até que eu terminasse de responder alguns e-mails, encerrasse a conversa na sala de bate-papo e fosse dormir.
O Nóia concentrou toda a minha atenção naqueles primeiros dias de recuperação e foi o grande amigo que tive num momento difícil de minha vida.
Acabei conhecendo muitos companheiros de A.A. no Grupo Vila Gustavo, o qual freqüentava, e no grupo AABR, pela internet, e já não me sentia mais solitário.
Quando eu iria completar três meses de recuperação, numa noite, o Nóia me pareceu estranho.
Eu estava no computador e ele ia até a porta e depois voltava até mim. Entendi que ele estava querendo sair. Meu irmão disse: - deixa ele dar uma volta, você sempre deixa!
Eu respondi que não; que se ele saísse, não mais voltaria. Mas com a insistência do meu irmão, eu acabei cedendo e deixei-o sair.
Foi a última vez que o vi. Não voltou mais.
Hoje, com quase três anos em recuperação, depois de muitas coisas novas que passaram a acontecer na minha vida, quando ando pelo bairro, ainda me perguntam na rua: - cadê o Nóia?
Eu digo: - fugiu!
E alguns respondem: - não fugiu, não, Alfredo, ele foi ajudar outra pessoa a entrar em recuperação.
Você já conseguiu!
AL Vivência N°.96 Jul/Agosto 2005
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